Teatro, shows, baladas, internet... não faltam opções de diversão para o público gospel

Ei menina! Vai te divertir!”. Shirley Mesquita, de 25 anos, hoje finge que não ouve as provocações dos colegas de trabalho, mas isso ela aprendeu com o tempo. Não bebe, não fuma, evita decotes e roupas curtas e garante que se diverte bastante, sim, como qualquer garota da sua idade. “Tu não tens noção de como nossas festas são agitadas. Quando a gente se dá conta, já amanheceu, são sete da manhã”, diz, para então emendar: “Só que a gente se diverte numa boa, dança sem malícia, sem vulgaridade. São músicas pra Deus, que só trazem paz e alegria”.

Shirley é evangélica da Igreja Quadrangular. Vendedora em uma concessionária, ela decidiu ceder à paixão de infância e abraçou o teatro. Pelo menos uma vez por mês ela sobe ao altar de seu templo para encenar historias de fé, perdão, esperança, e já perdeu as contas de quantos personagens já encarnou ao lado do Grupo de Teatro Peniel, que ela integra desde 2008 ao lado de 14 outros jovens. Shirley é a mais velha da trupe. Segundo ela, os ensinamentos obtidos na Igreja vão para o palco de maneira sutil. “São histórias que falam da realidade do jovem, relações entre pais e filhos, problemas como as drogas, a prostituição. A gente às vezes abandona Deus e, no final, vê que é bem mais vantajoso estar com ele. É muito bom poder passar essa mensagem através da arte”.

Em uma das montagens favoritas do grupo, a versão paraense do espetáculo americano “Lifehouse”, uma garota de tênis, jeans e camiseta trava uma verdadeira batalha com personagens que, devidamente caracterizados, representam o alcoolismo, a ganância, a vaidade e a luxúria. É um processo extenuante tentar livrar-se de cada um deles. No último conflito, ela enfrenta a Morte – personagem que lhe propõe suicídio oferecendo um revólver - para então encontrar-se com Jesus, que a abraça e protege. Sem diálogos nem qualquer sofisticação, os atores valem-se somente de uma canção de fundo. Não há palavras nem necessidade delas. “A ideia é mostrar que não vale à pena se entregar às paixões que o mundo oferece”, Shirley ensina. A voz de menina por vezes é coberta pelo tom de convicção que cada uma de suas frases carrega.

Ela conta que, desde que “se converteu”, em 2003, jamais esteve na plateia de um espetáculo que não desenvolvesse a temática evangélica. “Eu vivo o meu teatro, com o nosso grupo de jovens, dentro da nossa igreja. Não me chama atenção outro tipo de peça, como as comédias vinculadas ao sexo, com palavras de baixo calão. Ninguém precisa disso. Na igreja temos peças engraçadas sem precisar desses artifícios”, defende. Os ensaios do grupo acontecem às sextas e domingos, no estacionamento da igreja Catedral da Família, localizada no bairro do Guamá.

BALADEIRA SIM, SENHOR!

Layse de Souza Sampaio, 22 anos, frequentadora da Igreja Evangélica Assembleia de Deus, se diz baladeira. “Sempre que rola um show evangélico por aqui eu to dentro!”, ri. Contudo, ela, que é estudante do curso de Licenciatura em Química na Universidade Federal do Pará, conta que resiste veemente aos convites dos colegas para as festas no famigerado Vadião. “É uma grande tentação, porque eu sei que é divertido. Mas aquele não é mais o meu ambiente, quando estamos na igreja precisamos dar bons exemplos. Não quero denegrir minha imagem, nem a da minha igreja. Se alguém souber que eu estive lá, vai achar que eu estava na bagunça, bebendo”, ajuíza.

Para este tipo de conduta, uma penalidade: a disciplina imposta pelo pastor, que pode resultar no afastamento da igreja durante alguns dias, dependendo da gravidade da falha cometida. “Mas isso é meio raro de acontecer”, garante.

Para além dos muros da universidade, Layse marca presença em todos os shows evangélicos que acontecem por aqui.- devidamente paramentada, claro. “Eu a-m-o salto alto. É errada essa imagem de que ‘crente’ não se arruma, tem que usar saião, cabelão escorrido. Eu adoro me maquiar, me arrumar. Nós somos jovens como todo mundo”.

Público gospel é fiel ao estilo

Layse diz que dificilmente ouve gêneros musicais fora da música gospel. Logo, prepara os fones de ouvido sempre que a irmã gêmea – a quase homônima Lays, que tal qual o pai das duas, não é evangélica - resolve ouvir seus ídolos sertanejos e forrozeiros. “Eu detesto esse tipo de música. Quase sempre tem obscenidade oculta, não gosto. Alguns ritmos até que são legais, mas as letras... ora, ‘Chupa que é de uva’!? Não, prefiro colocar os fones e ouvir minhas músicas no celular, para evitar brigas”, diz.

Já em relação ao irmão mais novo, Henrique, de 14 anos, evangélico, harmonia total. Tanto que os dois decidiram montar um grupo musical de louvor: ela nos vocais, ele no violão e mais três amigos que completam a sonoridade com bateria, teclados e guitarra. A inspiração vem dos cantores Eyshila, André Valadão, Kléber Lucas e Fernanda Brum – dos quais ela coleciona dezenas de CDs. “Fico muito emocionada quando estou cantando e adorando a Deus. As pessoas cantando junto, orando, profetizando... é uma verdadeira benção”.

DIVERSÃO

Para a alegria dos jovens evangélicos, há uma quantidade infindável de opções quando o assunto é diversão gospel. No mês passado, causou burburinho a notícia de que Cary Granat, co-fundador da Walden Media (“Crônicas de Narnia”), estaria se unindo à produtora Reel Fx e à Paramount Pictures para levar às telas – e em 3D - a história da criação segundo o Livro de Gênesis. Mas é preciso calma, já que o filme “In the Beginning” ainda não tem previsão para início de produção.

Em Belém, a ‘Madrugada Jovem’, realizada a cada quatro meses, reúne cerca de 10 mil pessoas no Cidade Folia, com oito horas de música, dança, teatro e esportes radicais. A 12ª edição do evento, organizado pelos pastores Marcelo e Andrezza Carvalho, acontece no próximo dia 24.

Já na próxima quinta, acontece o I Encontro Paraense de Arte Gospel, com duas bandas e 21 grupos de dança. “Belém tem um público Gospel muito grande. Criamos o evento depois do último Dançarte, quando várias pessoas pediram que fosse realizado um festival de dança voltado exclusivamente para esta temática”, explica o organizador do evento, William Júnior. Segundo ele, a expectativa é de que 270 pessoas lotem o Teatro Waldemar Henrique na noite do festival.

Na internet, o site americano The Brick Testament virou febre, exibindo passagens da Bíblia feitas a partir de bonequinhos de Lego. Imagine: são mais de 3,6 mil fotografias, ilustrando 400 histórias bíblicas. Lançada em 2001, a página, de autoria de Brendan Powell Smith, reúne momentos icônicos como o Gênesis, a Santa Ceia e a historia de Caim e Abel. Ainda no ambiente virtual, o site de relacionamento GospelEncontros.com intitula-se o maior serviço de namoro cristão na América Latina, com mais de 777 mil evangélicos cadastrados. Além dos perfis, há ainda a área ‘Testemunhos’, que reúne depoimentos de casais que se encontraram no ambiente virtual e nunca mais se largaram.

Links

www.thebricktestament.com

www.paqueragospel.com

www.gospelmais.com.br/

www.belemcrentes.com.br

(Diário do Pará)

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Eginoaldo

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