O cearense radicado em São Paulo já teve medo de trabalhar pendurado em arranha-céus, mas hoje conta com a autoconfiança para enfrentar a tarefa. Só que às vezes toma uns sustos.

Daniela Toviansky

Francisco de Assis, Limpador de Fachada
32 anos, 15 de profissão

Nasci no Ceará, e com 15 anos fui para Brasília trabalhar como vendedor de cosméticos. Acabei vindo pra cá porque a maioria da minha família morava por aqui. Fui vendedor e cobrador de ônibus. Quando fiz 17 anos, conheci o rapaz que me ensinou isso aqui. Hoje ele é casado com a minha irmã.

Na primeira vez, fui sem saber qual era o trabalho. Quando chegamos ao lugar, um prédio de 22 andares, pensei: “Esse cara é louco! Nunca que vou ter coragem de fazer um serviço desses”. Aí ele me disse: “Monta uma corda e desce nessa caixa d’água vazia, que tem 6 metros”. Foi assim que comecei, e vi que não era difícil. Quando ele voltou do horário de almoço, eu já estava descendo na fachada do prédio.

Chego a ficar três meses em um prédio. Limpar fachada demora. Tem que passar o detergente e depois tirar com o rodinho, um a um. E não pode deixar o vidro escorrido. Nos prédios maiores, só consigo fazer uma descida por dia. Nos menores, até três.

Num dia em que eu limpava um prédio residencial, havia uma janela meio aberta em um dos apartamentos e eu bati para a pessoa fechar. De repente apareceu uma mulher só de toalha – ela tinha acabado de sair do banho – para ver o que era. Nós dois tomamos um susto!

Eu nunca caí. Nem quero! Mas a gente toma alguns sustos, como uma vez em que esqueci de apertar a alavanca e a cadeirinha deu um tranco para baixo. Geralmente ficamos em dois, pois você precisa de um suporte. Quando o prédio é pequeno, pode até descer um só, mas sempre com alguém acompanhando o trabalho, como um bombeiro (brigadista do próprio prédio) ou outro limpador. Minha mãe não gosta nem de pensar no que eu faço, ela tem medo. Todo mundo tem. Mas minha mulher já está acostumada. Ela me conheceu fazendo isso.

Gosto da adrenalina. Não quero fazer outra coisa. Não tem o chefe ali, falando toda hora o que a gente deve fazer: é subir lá e descer fazendo o nosso serviço. O barulho dos carros não atrapalha nem um pouco. Às vezes eu desço ouvindo música. Sempre música evangélica.

Fonte: Época São Paulo
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Eginoaldo

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